sábado, 31 de outubro de 2009

notas de esquecimento


Enquanto a pintura contém o tempo dos gestos manuais marcados nos suportes, a fotografia guarda apenas o tempo do corte, do disparo. Essa limitação gestual fragiliza a fotografia como arte e ao mesmo tempo revela sua especificidade como linguagem, em que o artista passa a equilibrar-se na corda bamba entre o tempo contínuo e o instante do passado fixado, contido no presente em suas imagens impressas.

É sobre a elasticidade desse tempo entrecortado e fixo que Iris Helena desenvolve sua pesquisa artística. Para ela não interessa apenas o flagra, o instante mágico ou a eloqüência da imagem. A sua busca verdadeira é sobre o questionamento da extensão temporal da imagem banal, cotidiana. Daí a utilização de suportes frágeis que remete a diferentes temporizações. Suas imagens urbanas em post its na Aliança Francesa ou das ruínas em papel higiênico no NAC são metáforas, refletindo a manipulação consciente sobre memórias e esquecimento.

roncalli dantas

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Exu entre Dioniso e Apolo


Alienação. Ohhh!

Mas a arte é o equilíbrio entre Dioniso e Apolo, entre corpo e intelecto.

- Sim.

Mas veja só.

Vamos a um desafio!

Eu ponho Construção de Chico Buarque na lousa (com partitura e tudo) e você põe qualquer uma de Jakson do Pandeiro. Quem ganha? Quem ganha?...

dou-lhe uma, dou-lhe duas.... BOOOOOM

Mas é lógico que o grande Chico ganha na lousa. É lógico que a estrutura melódica, harmônica e lingüística de Construção é tecnicamente melhor! Mas onde mora a lógica da performance quando se entrega um violão a Chico e um pandeiro a Jakson?

O que dizer da sofisticada embolada rítmica e corpórea de Jakson? Será mesmo que o baixinho mestiço tinha consciência intelectual do que fazia no palco?

- Um momento. Antes de qualquer coisa, é bom deixar claro que sou fã de Chico Buarque.

A canção de Chico não aliena. A letra é distribuída obedecendo os acentos melódicos e a angústia do trabalhador, que morre no asfalto atrapalhando as proparóxitonas, é a própria tragédia que leva o espectador ao Pathos, catarze... e tudo mais. Tudo meticulosamente e intelectualmente dosado.

E do outro lado? Tadin de Jakson. Ele fez somente música corpórea! Nele pulsa apenas resquícios do sangue azul.

Mas como um Exu se travestindo de Dioniso, o pequeno mestre percorre malandro entre melodia e letra. Percorre, anda, corre, desacelera e faz isso magistralmente entre contratempos de consoantes e vogais na batida do pandeiro. Essa é uma virtude que ainda muitos teóricos não perceberam. Simplesmente porque Dioniso abandonou a Europa e como nós aqui dificilmente produzimos teorias, acabamos aceitando os paradigmas do que é boa música a partir do que se chama boa música na Europa.

Nós reproduzimos todos os dias na academia a inversão da cena do príncipe Charles dançando com a negra Piná na década de oitenta!

Somos Charles querendo que uma negra dançe como nós. Ou melhor, que ela deixe de dançar... porque é alienante.

Não é possível teorizar canções populares brasileiras a partir dos paradigmas científicos intelectuais europeus. Simplesmente por que nossa canção popular, devido à influência africana, tem uma sofisticação diferente!



terça-feira, 28 de julho de 2009

Deus e Diabo


- A arte é linguagem?
- Não, a arte surge no instante em que rompe com a linguagem. É expressão de não linguagem.

Mas até que ponto um crítico ou cientista pode dispor das teorias da linguagem para elaborar concepções sobre um trabalho artístico? Será que é possível afirmar que toda obra visual possui elementos no universo da linguagem ou será que é pretensão dos teóricos?

Acredito que esse debate seja um dos mais instigantes nas rodas de conversas entre pessoas que curtem artes visuais em João Pessoa. Alguns admitem o caráter da linguagem na arte, outros defendem que quando a arte se coloca como meio de comunicação, perde a poeticidade. Sendo, portanto, algo que rompe com a função de código entre alguém que o elaborou e outro que o decodifica como receptor.

Eu não tenho a intenção nem a pretensão de dar um ponto final nesse debate, mas queria contribuir com algumas observações.

Primeiro ponto é entender que essa discussão gira em torno de que a arte pode ou não ser representação. - Será que quando uma obra indicia algo ela perde seu caráter ontológico, de poesia-substancia? E aí vem a antiga angústia dos fotógrafos que lutam incessantemente contra a fragilidade da fotografia como meio artístico, que, utilizando a expressão de Barthes, “a fotografia sempre adere ao referencial”, sempre parte da representação do real.

Acontece que a linguagem nascendo signo, representação, em alguns momentos salta do universo indicial para ser substancia própria. O receptor pode decodificar aquele elemento não mais como código, mas como sendo pertencente a um universo paralelo ao representado ou mesmo ser a substancia que porventura ele estaria representando inicialmente.

Até pouco tempo atrás eu tinha medo de pronunciar a palavra “diabo”, porque acreditava que o chifrudo co-habitava naqueles sons. Não era só eu que pensava assim, Guimarães Rosa soube como ninguém a arte de pinçar palavras do universo da representação para colocá-las no terreno da substancia e fez isso com maestria no seu livro Grande Sertão Veredas. No outro extremo, o antigo tetragrama YHVH (gráfico) para o nome do Deus de Israel não possui seu correspondente oral. Tamanho era o respeito com a palavra, com o nome, que ao deixar de ser pronunciada, com o tempo, perdeu-se o som original. Assim, sua tradução pode ser Jeová, Iavé, Jiové etc. Visto que graficamente não existe meios de identificar as vogais do nome. Essa existência do medo na enunciação nos prova que as palavras também podem ser mais do que código, representação. Elas saem da condição de espelho, podendo conter traços do próprio ser a que está representando, sem todavia perder suas características de representatividade em um contexto.

É assim que penso também nas obras de arte. A arte genuína é substancia própria, tem valor ontológico, existência além da representatividade. Ela pode nascer ou ter face comunicativa, contudo, é essencialmente essência. É o Diabo no livro de Guimarães Rosa e o tetragrama no Velho Testamento. Arte não é somente linguagem, é Deus e Diabo.

Roncalli Dantas

segunda-feira, 20 de julho de 2009

A cidade, as paredes



Conheço uma cidade que possui casas cercadas por muros, que vive em um mundo sem entorno. Onde, ensimesmada consigo, as pessoas não convergem, e estufam peitos com orgulho de suas paredes. Vivem suas vidas na árdua tarefa de construir muros para procriar seus pequenos feudos, convivendo numa cultura de segredos, em guetos intelectuais, detentores Cult de algo não repartido.

- Caso alguém queira se entranhar em suas avenidas, vai ter que, obrigatoriamente, deparar com as paredes, bater nos portões, esperar que alguém o atenda para depois cheirar o asfalto de lá.

Eles ainda não entenderam que as jóias só adquirem valor depois quetodos da comunidade a conhecem para considerarem valiosas. Que enquanto ninguém as reconhecer, não há nada além de matéria indiferente.

E assim continuam escondendo materiais para si.

Êh vidão!

Porém, boas notícias sopram de lá. Me disseram que eles começaram a ocupar os espaços públicos. - Lugares sem paredes! Famílias inteiras brincando no domingo em praças, locais abertos.

De longe se escuta as vozes, os sorrisos.

Finalmente alguns estão aprendendo que nesses tempos virtuais ninguém é detentor de território algum. Falta agora os artistas dessa cidade perceberem isso!!!

Roncalli Dantas

terça-feira, 2 de junho de 2009

circuladô de fulô

“Circulado de fulô, ao deus ao demo dará, que deus te guie porque eu não posso guiá”.

Haroldo de Campos/Caetano Veloso

Alguém sabe onde estão as instalações de Rodolfo Atahyde? Onde posso encontrar os primeiros trabalhos de Diógenes Chaves? Vocês me dão o paradeiro dos trabalhos realizados entre 1979 e 1983 no Núcleo de Arte Contemporânea? Porque não temos praticamente nada de Antônio Dias? Porque não vemos nenhum trabalho da série dos títulos em latin de José Rufino? Porque não temos uma parede com as fotografias da performance de Chico Pereira em “Um dia de sol”? Será que eu mostrarei algum trabalho da série “desenhos secretos” de Fabiano Gonper a alguma criança?

A arte, como diz Roland Barthes, surge entre a memória e a liberdade e o que existe em nossa cidade é um vácuo da presença visual de alguns pilares artísticos. Que referencial um artista que não segue uma pesquisa estética na linha figurativa, armorial, pictórica e naif pode ter em nossa cidade?

Enquanto isso, me perco, dançando como um cego, ouvindo o som urbano sampleado entre jazz, coco, caboclinho de Chico Correia, os ritmos afros do Burro Morto e a discotecagem de Verdeee no Espaço Mundo.

Roncalli Dantas

segunda-feira, 13 de abril de 2009

Show em casa ou em casa de show?


Nos últimos dias ocorreram três eventos que chamaram a atenção para a importância do locus arquitetônico na arte contemporânea. A exposição Plano 72 dos alunos da UFPB numa casa da General Osório, o evento Revolante Filipéia no casarão da Piollin e o show de abertura da Banda de Seu Pereira em Campina Grande na casa do Bar e Arte.

Na contemporaneidade, os salões de artes em cubo branco estão para as artes visuais assim como as casas de shows, com seus grandes vãos vazios e neutros, estão para as apresentações de música. Os lugares acabam ocupando a função de simples moldura, são intervalos de sentido que não interferem, nem acrescentam absolutamente nada ao produto final do artista ou à interação entre a performance musical do intérprete e o público. Sendo elementos neutros, o lugar deixa de ser lugar e passa a ser espaço, que não deve macular a obra ou a comunicação. São suportes que fornecem um padrão normatizado para facilitar o deslocamento das obras e das performances, musicais e visuais.

Sábado passado, em campina grande, enquanto tomava uma caipiroska no Bar e Arte, perguntei a uma pessoense que tinha feito o caminho inverso da praia para buscar aquele ambiente em pleno fim de semana. O que você encontra aqui nesse lugar que não tem em João Pessoa? Ela parou um pouco e me respondeu mostrando os cantinhos da casa: “Aqui tem boa discotecagem, bom atendimento, pessoas legais e o lugar é acolhedor, tem identidade”.

Enquanto ela falava, de imediato pensei na casa da Tia Ciata, nascedouro do samba no Rio de Janeiro, e que Wisnik fez um estudo relacionando os ambientes da casa com as pessoas e a música que nascia na época. Sendo aquele ambiente na região portuária do Rio um espaço dividido entre sala, cozinha e terreiro, cada lugar dispunha instrumentos, assuntos e ritmos musicais distintos sem impedir a circulação dos convidados entre os cômodos. A música com influência européia e os instrumentos de sopro e cordas ficavam na sala, o batuque afro-brasileiro de tambores e atabaques no terreiro e as trocas rítmicas musicais na cozinha, propiciando o alimento em todos os sentidos para os deslocamentos de informações entre os ambientes.

- São os cômodos na arte. Ele singulariza o lugar, estabelece o envolvimento ritual das pessoas, facilitando a mesclagem e o dialogo. As paredes não estabelecem categorias classificatórias, de rotulações esteriotípicas entre os convidados, mas sugere caminhos de orientação para hibridismos entre visões distintas. Assim ocorreu na piollin. O grande terraço, circulando o exterior da casa, de clima ameno, rolando bate papo desleixado sobre exposições, cinema e música. A pista de dança quente pelo afrobeat do Burro Morto e o espaço intermediário, claro e agitado do barzinho, funcionando como interstício entre os ambientes.

Na exposição plano 72, devido às características próprias das linguagens visuais, o nível de interação do local com as obras atinge grande complexidade, pois a casa foi o elemento articulador entre as trabalhos dos artistas, evidenciando ora tensões de conflito espaço-temporal entre realidades distintas, ora apropriações por parte dos artistas para chegar às soluções estéticas em diálogo. Como exemplo desse dialogo, a obra de Marco Aurélio estabelece um elo de comunicação entre a literatura encontrada na casa e os óculos dos antigos moradores, buscando, esteticamente, a compreensão da leitura e do olhar deslocado entre os antigos habitantes do local e o próprio leitor atual que foi à exposição.

É assim o diálogo entre a obra artística, a arquitetura e o espectador. Ela fornece indícios para um olhar territorializado que inclui uma carga de sentido entre o que foi criado na atualidade, o lugar que o envolve e a recepção. Não é possível compreender a densidade de uma produção artistica atual, desprezando os elementos da linguagem arquitetônica e toda sua carga histórica inserida. Fica então as alternativas para os artistas. Expor, apresentar-se num cubo branco, numa casa de Show ou buscar espaços que interferem na sua própria obra, dialogando e produzindo conflitos.

Roncalli Dantas

terça-feira, 31 de março de 2009

Dia de cão no paraíso



28 de março

Em um set de filmagem

No interior de uma casa,
confinados ao calor dos refletores,
uma duzia de pessoas disputavam espaço
com o material de gravação, criando
soluções para as filmagens.
Eu vi aqueles
seres nojentos com suor entranhado junto
à poeira nas roupas em coro imagético
perfeito com Belo, o simpático cão sujo de
lama, que perambulava no set à procura de
atenção. No entanto, o brilho nos olhos e
a disposição gratuita de se lambuzar na produção
do filme era evidente. Desconfio que exista
alguma entidade que proteja esses penitentes,
que socorra e dê ânimo para eles vencerem
um dia de cão. Ou será que foi
artimanha do velho Anjo Exterminador de Buñuel,
que impediu as pessoas de perceberem que estavam
confinadas naquele ambiente?
Não sei, não consigo visualizar respostas,
mas aprendi que o set de filmagem é um
templo de uma religião paradoxal.

Fazer cinema é encontrar o paraíso
vivendo num inferno.

Roncalli Dantas