
Nos últimos dias ocorreram três eventos que chamaram a atenção para a importância do locus arquitetônico na arte contemporânea. A exposição Plano 72 dos alunos da UFPB numa casa da General Osório, o evento Revolante Filipéia no casarão da Piollin e o show de abertura da Banda de Seu Pereira
Na contemporaneidade, os salões de artes em cubo branco estão para as artes visuais assim como as casas de shows, com seus grandes vãos vazios e neutros, estão para as apresentações de música. Os lugares acabam ocupando a função de simples moldura, são intervalos de sentido que não interferem, nem acrescentam absolutamente nada ao produto final do artista ou à interação entre a performance musical do intérprete e o público. Sendo elementos neutros, o lugar deixa de ser lugar e passa a ser espaço, que não deve macular a obra ou a comunicação. São suportes que fornecem um padrão normatizado para facilitar o deslocamento das obras e das performances, musicais e visuais.
Enquanto ela falava, de imediato pensei na casa da Tia Ciata, nascedouro do samba no Rio de Janeiro, e que Wisnik fez um estudo relacionando os ambientes da casa com as pessoas e a música que nascia na época. Sendo aquele ambiente na região portuária do Rio um espaço dividido entre sala, cozinha e terreiro, cada lugar dispunha instrumentos, assuntos e ritmos musicais distintos sem impedir a circulação dos convidados entre os cômodos. A música com influência européia e os instrumentos de sopro e cordas ficavam na sala, o batuque afro-brasileiro de tambores e atabaques no terreiro e as trocas rítmicas musicais na cozinha, propiciando o alimento em todos os sentidos para os deslocamentos de informações entre os ambientes.
Na exposição plano 72, devido às características próprias das linguagens visuais, o nível de interação do local com as obras atinge grande complexidade, pois a casa foi o elemento articulador entre as trabalhos dos artistas, evidenciando ora tensões de conflito espaço-temporal entre realidades distintas, ora apropriações por parte dos artistas para chegar às soluções estéticas em diálogo. Como exemplo desse dialogo, a obra de Marco Aurélio estabelece um elo de comunicação entre a literatura encontrada na casa e os óculos dos antigos moradores, buscando, esteticamente, a compreensão da leitura e do olhar deslocado entre os antigos habitantes do local e o próprio leitor atual que foi à exposição.
É assim o diálogo entre a obra artística, a arquitetura e o espectador. Ela fornece indícios para um olhar territorializado que inclui uma carga de sentido entre o que foi criado na atualidade, o lugar que o envolve e a recepção. Não é possível compreender a densidade de uma produção artistica atual, desprezando os elementos da linguagem arquitetônica e toda sua carga histórica inserida. Fica então as alternativas para os artistas. Expor, apresentar-se num cubo branco, numa casa de Show ou buscar espaços que interferem na sua própria obra, dialogando e produzindo conflitos.
Roncalli Dantas