segunda-feira, 20 de julho de 2009

A cidade, as paredes



Conheço uma cidade que possui casas cercadas por muros, que vive em um mundo sem entorno. Onde, ensimesmada consigo, as pessoas não convergem, e estufam peitos com orgulho de suas paredes. Vivem suas vidas na árdua tarefa de construir muros para procriar seus pequenos feudos, convivendo numa cultura de segredos, em guetos intelectuais, detentores Cult de algo não repartido.

- Caso alguém queira se entranhar em suas avenidas, vai ter que, obrigatoriamente, deparar com as paredes, bater nos portões, esperar que alguém o atenda para depois cheirar o asfalto de lá.

Eles ainda não entenderam que as jóias só adquirem valor depois quetodos da comunidade a conhecem para considerarem valiosas. Que enquanto ninguém as reconhecer, não há nada além de matéria indiferente.

E assim continuam escondendo materiais para si.

Êh vidão!

Porém, boas notícias sopram de lá. Me disseram que eles começaram a ocupar os espaços públicos. - Lugares sem paredes! Famílias inteiras brincando no domingo em praças, locais abertos.

De longe se escuta as vozes, os sorrisos.

Finalmente alguns estão aprendendo que nesses tempos virtuais ninguém é detentor de território algum. Falta agora os artistas dessa cidade perceberem isso!!!

Roncalli Dantas

terça-feira, 2 de junho de 2009

circuladô de fulô

“Circulado de fulô, ao deus ao demo dará, que deus te guie porque eu não posso guiá”.

Haroldo de Campos/Caetano Veloso

Alguém sabe onde estão as instalações de Rodolfo Atahyde? Onde posso encontrar os primeiros trabalhos de Diógenes Chaves? Vocês me dão o paradeiro dos trabalhos realizados entre 1979 e 1983 no Núcleo de Arte Contemporânea? Porque não temos praticamente nada de Antônio Dias? Porque não vemos nenhum trabalho da série dos títulos em latin de José Rufino? Porque não temos uma parede com as fotografias da performance de Chico Pereira em “Um dia de sol”? Será que eu mostrarei algum trabalho da série “desenhos secretos” de Fabiano Gonper a alguma criança?

A arte, como diz Roland Barthes, surge entre a memória e a liberdade e o que existe em nossa cidade é um vácuo da presença visual de alguns pilares artísticos. Que referencial um artista que não segue uma pesquisa estética na linha figurativa, armorial, pictórica e naif pode ter em nossa cidade?

Enquanto isso, me perco, dançando como um cego, ouvindo o som urbano sampleado entre jazz, coco, caboclinho de Chico Correia, os ritmos afros do Burro Morto e a discotecagem de Verdeee no Espaço Mundo.

Roncalli Dantas

segunda-feira, 13 de abril de 2009

Show em casa ou em casa de show?


Nos últimos dias ocorreram três eventos que chamaram a atenção para a importância do locus arquitetônico na arte contemporânea. A exposição Plano 72 dos alunos da UFPB numa casa da General Osório, o evento Revolante Filipéia no casarão da Piollin e o show de abertura da Banda de Seu Pereira em Campina Grande na casa do Bar e Arte.

Na contemporaneidade, os salões de artes em cubo branco estão para as artes visuais assim como as casas de shows, com seus grandes vãos vazios e neutros, estão para as apresentações de música. Os lugares acabam ocupando a função de simples moldura, são intervalos de sentido que não interferem, nem acrescentam absolutamente nada ao produto final do artista ou à interação entre a performance musical do intérprete e o público. Sendo elementos neutros, o lugar deixa de ser lugar e passa a ser espaço, que não deve macular a obra ou a comunicação. São suportes que fornecem um padrão normatizado para facilitar o deslocamento das obras e das performances, musicais e visuais.

Sábado passado, em campina grande, enquanto tomava uma caipiroska no Bar e Arte, perguntei a uma pessoense que tinha feito o caminho inverso da praia para buscar aquele ambiente em pleno fim de semana. O que você encontra aqui nesse lugar que não tem em João Pessoa? Ela parou um pouco e me respondeu mostrando os cantinhos da casa: “Aqui tem boa discotecagem, bom atendimento, pessoas legais e o lugar é acolhedor, tem identidade”.

Enquanto ela falava, de imediato pensei na casa da Tia Ciata, nascedouro do samba no Rio de Janeiro, e que Wisnik fez um estudo relacionando os ambientes da casa com as pessoas e a música que nascia na época. Sendo aquele ambiente na região portuária do Rio um espaço dividido entre sala, cozinha e terreiro, cada lugar dispunha instrumentos, assuntos e ritmos musicais distintos sem impedir a circulação dos convidados entre os cômodos. A música com influência européia e os instrumentos de sopro e cordas ficavam na sala, o batuque afro-brasileiro de tambores e atabaques no terreiro e as trocas rítmicas musicais na cozinha, propiciando o alimento em todos os sentidos para os deslocamentos de informações entre os ambientes.

- São os cômodos na arte. Ele singulariza o lugar, estabelece o envolvimento ritual das pessoas, facilitando a mesclagem e o dialogo. As paredes não estabelecem categorias classificatórias, de rotulações esteriotípicas entre os convidados, mas sugere caminhos de orientação para hibridismos entre visões distintas. Assim ocorreu na piollin. O grande terraço, circulando o exterior da casa, de clima ameno, rolando bate papo desleixado sobre exposições, cinema e música. A pista de dança quente pelo afrobeat do Burro Morto e o espaço intermediário, claro e agitado do barzinho, funcionando como interstício entre os ambientes.

Na exposição plano 72, devido às características próprias das linguagens visuais, o nível de interação do local com as obras atinge grande complexidade, pois a casa foi o elemento articulador entre as trabalhos dos artistas, evidenciando ora tensões de conflito espaço-temporal entre realidades distintas, ora apropriações por parte dos artistas para chegar às soluções estéticas em diálogo. Como exemplo desse dialogo, a obra de Marco Aurélio estabelece um elo de comunicação entre a literatura encontrada na casa e os óculos dos antigos moradores, buscando, esteticamente, a compreensão da leitura e do olhar deslocado entre os antigos habitantes do local e o próprio leitor atual que foi à exposição.

É assim o diálogo entre a obra artística, a arquitetura e o espectador. Ela fornece indícios para um olhar territorializado que inclui uma carga de sentido entre o que foi criado na atualidade, o lugar que o envolve e a recepção. Não é possível compreender a densidade de uma produção artistica atual, desprezando os elementos da linguagem arquitetônica e toda sua carga histórica inserida. Fica então as alternativas para os artistas. Expor, apresentar-se num cubo branco, numa casa de Show ou buscar espaços que interferem na sua própria obra, dialogando e produzindo conflitos.

Roncalli Dantas

terça-feira, 31 de março de 2009

Dia de cão no paraíso



28 de março

Em um set de filmagem

No interior de uma casa,
confinados ao calor dos refletores,
uma duzia de pessoas disputavam espaço
com o material de gravação, criando
soluções para as filmagens.
Eu vi aqueles
seres nojentos com suor entranhado junto
à poeira nas roupas em coro imagético
perfeito com Belo, o simpático cão sujo de
lama, que perambulava no set à procura de
atenção. No entanto, o brilho nos olhos e
a disposição gratuita de se lambuzar na produção
do filme era evidente. Desconfio que exista
alguma entidade que proteja esses penitentes,
que socorra e dê ânimo para eles vencerem
um dia de cão. Ou será que foi
artimanha do velho Anjo Exterminador de Buñuel,
que impediu as pessoas de perceberem que estavam
confinadas naquele ambiente?
Não sei, não consigo visualizar respostas,
mas aprendi que o set de filmagem é um
templo de uma religião paradoxal.

Fazer cinema é encontrar o paraíso
vivendo num inferno.

Roncalli Dantas